7 de junho de 2017 Off Por Pedro Taunay Graça Couto

O nome de Hilda Hilst certamente merece lugar de destaque na literatura brasileira. Poeta enigmática, instigante e, para muitos, estranha e hermética, Hilda é um dos grandes nomes de nossas letras, indispensável voz feminina em nossa poesia. Foi poeta, dramaturga, ficcionista, nasceu no interior do estado de São Paulo, na cidade de Jaú, no dia 21 de abril de 1930 e faleceu em Campinas, no dia 04 de fevereiro de 2004. Deixou uma grande e intensa contribuição para nossa literatura, e continua despertando o interesse de leitores e estudiosos de sua obra.

Em 1948 inicia seus estudos de Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, em São Paulo. Mulher de rara beleza, Hilda comportava-se de maneira muita avançada para a época, comportamento que chocava a alta sociedade paulista, uma vez que despertou paixões de poderosos, entre eles empresários e poetas. Levou uma vida de boêmia, rotina que se prolongou até o ano de 1963. Seus primeiros livros foram lançados, Presságio e Balada de Alzira, foram lançados em 1950 e 1951, respectivamente, e em 1952 conclui o curso de Direito.

Em 1962 recebe o Prêmio Pen Club de São Paulo, e neste mesmo ano passa a morar na Fazenda São José, próxima a Campinas, de propriedade de sua mãe. Abandona a vida de boêmia e passa a se dedicar exclusivamente à literatura, por entender que o isolamento do mundo tornava possível o conhecimento do ser humano. Em 1966 muda-se para a Casa do Sol (hoje Instituto Hilda Hilst), construída na fazenda, onde passa a viver com o escultor Dante Casarini, com quem se casaria em 1968 à pedido da mãe. Tem início uma intensa produção literária, que lhe renderia diversas homenagens e prêmios, entre eles o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), pelo livro Ficções, considerado o “Melhor Livro do Ano”. Em 1980 recebe da mesma instituição o prêmio pelo conjunto da obra.

Tem início uma nova fase de sua carreira, que a escritora anunciou como o “adeus à literatura séria”, em uma tentativa de vender mais e assim conquistar o reconhecimento do público. As obras dessa fase provocam espanto e indignação entre os amigos e crítica. A temática de sua poesia circundou as ações humanas, a inquietude do ser, a morte, o amor, o sexo, Deus e indagações metafísicas, tema que a levou a flertar com a Física e com a Filosofia. Entre suas experiências literárias, esteve aquilo que ela chamou de “Transcomunicação Instrumental”, quando deixava gravadores ligados por sua chácara (a Casa do Sol, hoje Instituto Hilda Hilst) com o intuito de gravar vozes de espíritos, demonstrando assim sua clara preocupação com a sobrevivência da alma.

Para que você conheça um pouco mais sobre a obra dessa importante escritora, o site Escola Educação selecionou quinze poemas de Hilda Hist para que você desvende os mistérios dessa interessante, e enigmática, voz de nossa literatura. Boa leitura!

  1. Poema: Araras versáteis – Hilda Hilst

Araras versáteis

Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii…
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

  1. Poema: Amavisse – Hilda Hilst

Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
(II)

* * *
Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.

  1. Poema: Dez chamamentos ao amigo – Hilda Hilst

Dez chamamentos ao amigo

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te