Gotas de Poesia

6 de fevereiro de 2021 Off Por Pedro Taunay Graça Couto

Catar feijão

1.

Catar feijão se limita com escrever:
Jogam-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco,
o de que, entre os grãos pesados, entre
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.

Confira também a nossa análise dos melhores poemas de João Cabral de Melo Neto.

6. Cecília Meireles (1901 – 1964)
Cecília Meireles foi uma escritora, professora e jornalista carioca que continua sendo considerada uma das mais importantes poetas da nossa literatura.

Cecília Meireles

Com ligações ao movimento modernista, Meireles fez história com a sua escrita singular, sendo muitas vezes lembrada pelas obras infantis de enorme sucesso.

Já a poesia intimista da autora, caracterizada pelo neossimbolismo, versava sobre temas incontornáveis como a vida, o isolamento do indivíduo e a passagem inevitável do tempo.

Assim, as suas composições, além de refletirem sobre a identidade, são atravessadas por sentimentos como a solidão e a perda, e continuam emocionando os leitores nacionais.

Lua adversa

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…