Gotas de Poesia

3 de junho de 2021 Off Por Pedro Taunay Graça Couto

Os 12 melhores poemas
Em 1938, Cecília Meireles tornou-se a primeira mulher a ser premiada pela Academia Brasileira de Letras, com o livro Viagem. “Motivo”, que compõe este livro, é um de seus poemas mais declamados. Para o crítico Sílvio Castro, este poema é “uma síntese da contribuição de Cecília Meireles à poesia moderna brasileira”: tem um pé na tradição e outro no tempo presente.

1 – Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa rimada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

O próximo poema fala da dor em tempos difíceis. Foi publicado nos anos 40, período marcado por uma das guerras mais terríveis de toda a história.

2 – Declaração de amor em tempos de guerra
Senhora, eu vos amarei numa alcova de seda,
entre mármores claros e altos ramos de rosas,
e cantarei por vós árias serenas
com luar e barcas, em finas águas melodiosas.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
andavam nos campos, agora.)

Para ver vossos olhos, acenderei as velas
que tornam suaves as pestanas e os diamantes.
Caminharão pelos meus dedos vossas pérolas,
— por minha alma, as areias destes límpidos instantes.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
começam a sofrer, agora.)

Estaremos tão sós, entre as compactas cortinas,
e tão graves serão nossos profundos espelhos
que poderei deixar as minhas lágrimas tranquilas
pelas colinas de cristal de vossos joelhos.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
estão sendo mortos, agora.)

Vós sois o meu cipreste, e a janela e a coluna
e a estátua que ficar, — com seu vestido de hera;
o pássaro a que um romano faz a última pergunta,
e a flor que vem na mão ressuscitada da primavera.

(Na minha terra, os homens, Senhora,
apodrecem no campo, agora…)

Os dois poemas seguintes são do livro Vaga Música (1942), de influência simbolista.

O Simbolismo é um movimento literário da segunda metade do século XIX que representa uma ruptura com o Realismo. A poesia simbolista tende a ser mais espiritual. Sua linguagem é mais sugestiva, musical, metafórica.

No início de sua carreira literária, Cecília Meireles esteve ligada ao grupo de escritores neo-simbolistas da revista Festa. Apesar dessa fase ter sido passageira, críticos como Sílvio Castro defendem que Cecília Meireles jamais abandona por completo o Simbolismo em toda a sua obra.

O primeiro poema é um ótimo exemplo da estética simbolista. Tente perceber as aliterações (repetições expressivas de sons) e as imagens. Já o segundo pode ser visto como um retrato do poeta decadente, itinerante, característico do Simbolismo francês do final do século XIX.

3 – As valsas
Como se desfazem as valsas
por longos pianos aéreos
que a noite envolve em suas chuvas!
Que ternura nas nossas pálpebras,
pelo exílio suave dos gestos
e dos perfis de antigas músicas!

Os marfins opacos recordam,
com uma graça desiludida,
a aura da morta formosura.
Gente de sonho, sem memória,
entrelaçada, conduzida,
por salões de esperança e dúvida.

E eram tão leves, nessas valsas!
E levavam lágrimas entre
seus colares e suas luvas!
E falavam de suas mágoas, valsando, e delicadamente,
com a voz presa e as pestanas úmidas!

Ah, tão longe, tão longe, as salas…
Levados os lustres e as vidas,
o amor triste, a humilde loucura…
Ficaram apenas as valsas
girando cegas e sozinhas,
Sem os habitantes da música!