Gotas de Poesia Poesia&vida

16 de setembro de 2019 Off Por Pedro Taunay Graça Couto

SELEÇÃO HYPENESS

Seleção Hypeness: 8 poetas contemporâneas que você precisa conhecer

por: Redação Hypeness

Quem for um dia estudar a poesia brasileira dessa segunda década do século XXI invariavelmente se verá diante de um fato: a mais impactante poesia realizada nesse momento é feita por mulheres.

Publicidade

As idades são diversas, assim como as origens e os estilos, mas o lugar de onde falam é o mesmo. Falam como mulheres, com suas peculiaridades e diferenças, sem emular sentimentalidades ou traços de escrita masculinas, trazendo um frescor necessário e revigorante para a cena literária e poética nacional.

Naturalmente que toda lista é pessoal, e são muitos os nomes que poderiam constar aqui. Porém, mais importante é a afirmação de que a melhor poesia brasileira atual é feminina. Nesse 8 de março, separamos 8 nomes que merecem mais do que nossa atenção; merecem aplausos, lágrimas e o agradecimento que há poesia deve receber, por fazer a vida se ampliar, a fim de tentar tornar mais plenas nossas emoções, sentidos e desejos. Conheça aqui um pouco dessas poetas e de seus poemas.

Alice Sant’Anna

POETAS6

Publicidade

Sob a influência de Ana Cristina César, a carioca Alice Sant’Anna lançou Dobradura, seu primeiro livro, em 2008 – considerado na época o livro do ano pelo Jornal do Brasil. De lá pra cá publicou Pingue –Pongue, (2012), em parceria com Armando Freitas Filho, e Rabo de Baleia (2013). Alice é dona de uma poética delicada e serena, com uma contundência intensa ainda que quase silenciosa.

um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

Ana Martins Marques

Publicidade

POETAS8

A poeta mineira Ana Martins Marques é autora dos livros A Vida Submarina (2009), Da Arte das Armadilhas (2011) e O Livro das Semelhanças (2015). Finalista do prêmio Portugal Telecom e vencedora dos prêmios Biblioteca Nacional e Alphounsus de Guimaraens, a autora afirma uma poética despojada porém rigorosa, que nos leva às profundidas da vida cotidiana.

Dentro do armário

Publicidade

do seu quarto de dormir

deve haver um espelho

Se você sai

Publicidade

e deixa o armário aberto

durante todo o dia

o espelho reflete

Publicidade

um pedaço da sua cama

desfeita

Se você sai

Publicidade

e deixa a porta fechada

durante todo o dia

o espelho reflete o escuro

Publicidade

do seu armário de roupas,

a luz contida dos vidros

de perfume

Publicidade

Do outro lado do poema

não há nada

Ana Guadalupe

Publicidade

POETAS1

Ana Guadalupe é uma poeta sintética com influências pop, sem jamais porém perder a densidade da alta literatura de vista, tratando do agridoce efeito do tempo, da memória, das dores e graças da vida. Paranaense que adotou São Paulo como sua casa, Ana é autora dos livros Relógio de pulso (2011) e Não conheço ninguém que não seja artista (2015).

Passé composé

Publicidade

subiu as escadas
para perguntar sobre as palavras
derrubadas pelo meu sotaque

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas;

disse que meu amor é
firme, retorna com maçãs
e canela das pernas;

Publicidade

se perguntasse sobre a
fertilidade, os perni-
longos, a falta de sorte,

responderia que meu amor é
forte, chacoalha as árvores
sempre que parte.

Angélica Freitas

Publicidade

POETAS5

Dona de uma poética humorada e crítica, a obra da gaúcha Angélica Freitas é vigorosa, feminina e original – tanto nos temas quanto na abordagem e no caminho de sua autocrítica de alvo universal. Uma das mais celebradas poetas da safra, Angélica é autora dos livros Rilke Shake (2007) e Um útero é do tamanho de um punho (2013).

sereia a sério

Publicidade

o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado

a perplexidade seria sempre
com o rabo da sereia

não quero contar a história
depois de andersen & co.
todos conhecem as agruras
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
de uma macumba poderosa